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O seu espírito pode curar o seu corpo, como?

Vencer o stress, encontrar a harmonia e viver melhor sem medicamentos.

Cada vez mais alguns estudos científicos nos mostram até que ponto o nosso estado mental e a nossa saúde estão ligados. A vítima de enfarte corre cinco vezes mais de risco de morrer se sofrer de stress crónico ou depressão. E se os nossos pensamentos e as nossas emoções podem adoecer-nos, também podem curar-nos. De que maneira? Como é que o nosso corpo e o nosso espírito se influenciam mútuamente para proporcionar-nos bem estar ou doença? Porquê se prescreve algumas vezes às pessoas depressivas a compra de um cão ou de um gato para apaziguar os seus desiquilíbrios? Como é que o efeito placebo pode melhorar o estado de um paciente sem recorrer a medicamentos? Porque é que as pessoas crentes vivem mais anos do que os ateus ou os agnósticos. O que devemos fazer para manter-nos de boa saúde?

O poder das nossa emoções

O espírito age sobre o corpo, o corpo age sobre o espírito. Duas relações inseparáveis. Ter pensamentos positivos ajuda-me a reparar as células do meu corpo. Praticar a respiração meditativa ajuda-me a clarificar os meus pensamentos. O que estão a descobrir os neuro- psicólogos, é que no centro destes mecanismos são as emoções que asseguram esta ligação corpo/espírito.

Longe dos conceitos cartesianos que estigmatizaram a separação do corpo e do espírito, a nossa experiência quotidiana a prova a relação constante que se establece entre os nossos pensamentos, as nossas crenças as emoções suscitadas por estas e as reacções do nosso corpo. Para ficar convencido, basta imaginar que no momento em que vocês estão a ler estas palavras recebem a notícia de que ganharam uma quantidade de dinheiro exorbitante. Nesse instante, sentem crescer uma grande energia, a vida vai parecer-vos maravilhosa, pensarão numa série de projectos, sentir-se-á feliz, e se calhar terá uma grande necessidade de mexer-se, de correr ou de dançar. As outras pessoas vão constatar a sua luminosidade e excelente forma. Imaginemos, ao contário, que você é informado da morte do seu melhor amigo. Imediatamente, vai ter a impressão de esvaziar-se de todas as suas forças, a existência vai parecer-lhe absurda, vai sentir-se voltado contra um muro sombrio, e possivelmente vai ser invadido por uma profunda tristeza, ficará de rastos e fragilizado. As outras pessoas vão achá-lo apagado, e sensíbilizado e se calhar na manhã seguinte ficará de cama com uma febre forte.
No laboratório de neurociências da Unversidade de Wiscounsin, Richard Davidson e a sua equipe demonstraram que o simples facto de visionar imagens detonantes de emoções negativas como o medo, a ansiedade ou a cólera, provoca uma estimulação da parte anterior do cérebro direito, o córtex pré frontal direito. Automaticamente, o sistema nervoso simpático é estimulado e prepara a nossa “resposta ao stress”. Isso resulta num aumento da produção de adrenalina e cortisol pelas glândulas suprarenais. O corpo mobiliza a sua energia, as suas forças musculares e as defesas imunitárias para reagir, fugindo ou atacando. A demonstração está feita: um pensamento negativo genera uma emoção negativa, que activa o sistema nervoso do stress (sistema simpático) e coloca o corpo em estado de alerta. Da mesma maneira, uma vez que as imagens projectadas pela equipe de Davidson provocam emoções positivas como a alegria ou o entusiasmo, é o cortex pré frontal esquerdo que se activa preferencialmente, estimulando o sistema nervoso parasimpático. Segue-se um relaxamento das tensões corporais, e a posta em marcha de mecanismos de reparação e de recuperação do organismo, e a estimulação do sistema imunitário, em particular as células NK (natural killer), uma espécie de polícias que circulam permanentemente no corpo à procura de de células “anormais”, infectadas ou cancerosas. Existe, portanto uma continuidade verdadeira entre os nossos estados psíquicos e físicos.

O stress é vital, mas o seu excesso mata-nos

A tensão do corpo engendrada pelos pensamentos e emoções negativas que nos assinalam um perigo, representa um trunfo para a nossa sobrevivência. Sempre que esta tensão não dure demasiado tempo, porque, a longo prazo, os níveis demasiados elevados de adrenalina esforçam o coração e os vasos sanguíneos, e um aumento de produção de cortisol acaba por provocar um desequilíbrio no sistema imunitário, podendo chegar a reações inflamatórias na origem de certas doenças auto-imunes. Sem contar que a mobilização de energia, em conseqüência da fuga ou do combate, impede toda uma série de funcionamentos normais do corpo e, acabam por fragilizar o organismo, tornado-o mais sensível à doença.
Assim, estima-se que o stress crônico está implicado na aparição de 75 a 90% de todas as patologias. Patologias em que nos damos conta hoje que são para a maioria o resultado de um desequilíbrio do organismo engendrado por um conjunto de fatores: predisposições hereditárias, má alimentação, toxicidade ambiental, diversos traumatismos e certas tensões emocionais. Aquilo que é admitido como uma úlcera gástrica (causada pela presença de uma bactéria e um terreno desfavorável, conseqüência do stress e maus hábitos alimentares relacionados com as tensões psicológicas) começa a ser considerado por muitas outras numerosas disfunções. Assim, as doenças reumáticas, as patologias cardiovasculares, a fragilidade frente às infecções (vários estudos demonstram que o facto de estar estressado predispõe a apanhar mais facilmente uma constipação ou uma gripe) e até mesmo o cancro. Com efeito, ainda que não existem provas formais de uma relação de causa e efeito entre as tensões psíquicas e o cancro, alguns estudos chamam a nossa atenção e convidam à prudência. Um facto remarcável, os resultados publicados em 2004 na prestigiosa revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences indicam que um stress crónico provoca uma diminuição dos telómeros – uma espécie de rolhas que protegem a extremidade dos cromossomas – e que por conseqüência, leva a um envelhecimento prematuro das células.

Quando a psicologia se torna positiva

O impacto negativo do stress sobre a saúde incita cada vez mais alguns investigadores a interessar-se pelos benefícios das emoções positivas. Aparecidas mais recentemente na nossa evolução (sic), elas constituem sem dúvida uma vantagem evolutiva para os animais que nós somos. Com efeito, se o medo e a cólera são indespensáveis para a nossa sobrevivência, estas emoções negativas são apenas úteis para fazer frente a um perigo real ou para prevenir alguns riscos excessivos a longo prazo. Pelo contário, as emoções positivas como o contentamento, a alegria, ou o entusiasmo permitem projectar-nos num futuro sereno e, ao mesmo tempo, economizar energia e preservar uma maior e melhor saúde. Vários estudos, alguns realizados em períodos de vinte a trinta anos, provam isso: as pessoas optimistas têm tendência a viver mais tempo e com melhor saúde que aqueles que se dejam invadir pelo pessimismo. Aprender a viver no presente, não se preocupar inutilmente por coisas improváveis de acontecer, ser capaz de gozar do copo meio cheio em vez de lamentar-se do copo meio vazio (…se calhar é só uma questão de interpretação dos mesmos factos…). Estas são as propostas da corrente de «psicologia positiva», acttualmente encorajada pela American Psychological Assciation. Porque a capacidade de raciocinar do córtex pré-frontal (o esquerdo em particular, implicado na gestão das emoções positivas) permite tomar a distância suficiente e, ao mesmo tempo, de evitar cair na armadilha da ansiedade, do stress e do esgotamento físico. É tudo uma questão de aprendizagem. Exercitar-se nesta actitude mental parece provocar uma verdadeira viravolta no cérebro no sentido de uma gestão emocional mais equilibrada, e protege então a saúde psíquica e física das pessoas.

Pensar em termos de informação

Hoje sabemos que o córtex pré-frontal esquerdo é mais recente na evolução do sistema nervoso que o cortex pré-frontal direito. O desenvolvimento do embrião, do feto e do bébé mostra-nos as diferentes etapas desta evolução. Não é de admirar que a criança deve obter a madures mais tarde, do cortex esquerdo para adquirir a capacidade de relativizar as suas emoções negativas. Mais tarde, tornado adulto, ele desenvolverá a sua reflexão, elaborará uma filosofia, e até crenças religiosas para manter a esperança face à adversidade. Porque é uma das particularidades da nossa condição humana, nós temos a necessidade de fugir do absurdo para continuar a viver. «Ter esperança não quer dizer que nós pensamos que as coisa vão acabar bem, mas que as coisas terão um sentido», escreveu Vaclav Havel. Atribuir um sentido aos acontecimentos aos da nossa vida parece ser essencial para a nossa sobrevivência. Assim, numerosos estudos põem em evidência um aumento da qualidade das defesas imunitárias em função das crenças positivas dos indivíduos. O humor, a propensão à alegria e a capacidade de sentir confiança.

Estão aqui tantos trunfos a favor da cura, que intervêm notávelmente neste efeito extranho que chamamos «placebo». Uma capacidade de autocura sustentada sobretudo pela sugestão e autosugestão positiva face à doença e ao seu tratamento.
Muito tempo negada, a possibilidade da influência da nossa psique sobre a saúde já não se discute. O estudo dos vínculos psico-neuro-endócrino-imunológicos aporta a prova dum continuum na tranformação e na circulação de informações dentro do ser humano. Portanto, ainda não é fácil conceitualizar a reunião das dimensões materiais ( o corpo, e os seu mecanismos fisiológicos e as suas respostas emocionais) e imateriais (o pensamento, as crenças, as emoções e os sentimentos).

Trés níveis de informação que do mais material (o corpo) ao mais imaterial (os pensamentos) articulam-se à volta dum eixo central, verdadeiro «coração» da experiência humana:

as emoções, vividas no corpo sobre a forma reacções físicas e traduzidas no pensamento sobre a forma de sentimentos.

As emoções: vínculo entre o material e o imaterial, e de aí a etimologia do latin (e-movere) lembra-nos que elas metem o corpo e o pensamento em movimento.

As emoções que constituem a «anima», a alma que anima o que vive.
Abordar a indivisibilidade do indivíduo em termos de informação permite seguir os caminhos da evolução filogenética do cérebro humano. Além de ser constituído por dois hemisférios, o nosso cérebro é o resultado de uma sobreposição de trés camadas. O mais antigo, chamado de reptiliano, intervém na conservação da homeostasia, equilíbrio indespensável do corpo. O mais recente, chamado neocortex, é o responsável pelas nossas capacidades de racionalização. E, entre os dois, o sistema límbico ou cérebro mamaliano, preside precisamente à elaboração da emoção.

Assim, através dos nossos três níveis de consciência, física, emocional e intelectual – a informação que nos constitui transforma-se e é traduzida da realidade corporal para a imaginação, do material para o imaterial. A via está aberta nos dois sentidos, esta informação pode assim metamorfosear-se do pensamento em acção e de imaterial em material. Numa perspectiva unitária, descobrimos que logo que a circulação de informação que nos constitui é fluida, nós ascedemos a um quarto estado da consciência: aquele estado de experiência do espírito que habita os nossos pensamentos, as nossas emoções e o nosso corpo. Este «sopro» que nos atravessa o spiritus do latin. Esta consciência de tudo aquilo que somos no momento. É isto que propôem algumas correntes espirituais, verdadeiras «ciências do espírito», recomendando a prática da meditação. Presentes a nós próprios no momento, atentos a respirar em plena consciência, nós aprendemos então a calmar os nossos pensamentos. Automaticamente, isso reequilibra as nossas emoções e relaxa o nosso corpo. Estudos recentes demonstram que com o tempo, a prática meditativa permite estimular mais facilmente o córtex pré-frontal esquerdo e, que ao mesmo tempo, genera maior quantidade de emoções positivas, estimulando as nossas defesas imunitárias.
Assim, depois de ter analizado a experiência humana nos seus mais pequenos detalhes, entre a fisiologia e a psicologia a ciência está em vias de redescobrir os vínculos que permitem substituir os «ou» pelos «e». A nossa compreensão do vivente ganhará sem dúvida muitíssimo.

 Thierry Janssen

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